terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um conto não-romântico

O som das árvores balançando dominava o lugar. Ele ouvia claramente seus passos no chão, um após o outro.


O sol se escondia por trás das nuvens, mas o dia estava claro. Mais um dia claro na estrada, um após o outro.


Buscava uma direção pra seguir, como vinha fazendo há tanto tempo. Tanto tempo que já nem se lembrava mais. Uma após a outra.


Ainda lembrava dos amigos que fez, aqueles que valiam a pena. Mas eles seguiram o caminho deles, simplesmente não indo à lugar nenhum. Ele acabou por sair da vida deles, quando escolheu a estrada. Amigos novos apareciam e iam embora no seu caminho. Um após o outro.


Ouvia o vento soprar no seu ouvido, e em tudo que o cercava. Aquele vento, a garoa, e sua própria respiração, que vinham e iam embora. Um após o outro.


Ainda podia ver ao longe a última cidade que havia visitado. Uma cidade de povo alegre, talvez numa felicidade ignorante. Mais uma naquela terra desconhecida. Uma após a outra.


Naquela cidade, havia um lugar onde as pessoas se reuniam. Lá ele conheceu uma garota, como as outras das cidades anteriores. Ele nem soube o nome dela. E nem se despediu também. Ela era igual às outras.


Uma após a outra.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sentidos, Parte 2: Audição

"Oi!", e o som rapidamente encheu o lugar. Logo em seguida, um silêncio aparentemente infinito. E aquele "oi" fica ecoando dentro da cabeça...

Mais alguma coisa é dita, mas não se ouve direito... Ainda há o eco interior.

"Desculpe, não ouvi..."
"Eu disse que esperava te ver aqui." E um sorriso.

Silêncio, novamente.


Para os que sabem ouvir, o silêncio diz muito.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Espaços

Tarde da noite, avenida vazia. Ele sentou-se no banco do ônibus e começou a esperar. Dias como aquele (ou suas noites) lembravam-o sempre de que estava sozinho.

Apesar do peso que essa constatação parece ter, ele não se sentiu mal. Gostava de ser um solitário. O vazio que ele preenchia, nem sempre com muito sucesso, fazia parte de quem ele era. Por que não, afinal? Por que precisamos sempre estar cheios de coisas ocupando nossos espaços? E se o próprio espaço não fizer parte de quem somos?

Será que, ocupando-o, ele não acabaria por esquecer de quem é?

Estamos sempre tão cercados, tão cheios de coisas querendo nos invadir, que esquecemos de nos conhecer, saber quem somos, quais são nossos gostos, ideias e objetivos. Deixamos que o mundo e as pessoas joguem suas porcarias dentro de nós, e deixamos que elas nos consumam, nos mudem. Acabamos nos perdendo no mundo, e no seu lixo.

Sentou-se no meio da avenida. Sem sinal de carros ou pessoas, de qualquer lado que fosse. Tudo vazio. Mas a avenida ainda estava lá. Em sua essência, ainda era a mesma e não perdeu seu propósito. O horário não era propício, mas nem por isso ela nunca mais seria útil.

O horário. A época. A situação. Como quem sempre soube daquilo, mas só então tivesse de fato parado pra pensar, ele sorriu discretamente. Mas não era a primeira vez que pensava sobre aquilo.

Levantou-se, começou a caminhar. O sol começava a aparecer. Logo, aquela avenida estaria cheia.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Primavera... De novo




E então o inverno acabou. O vento mudou, e as árvores se permitiram deixar que as folhas crescessem. Nuvens começaram a ser mais presentes, e as flores das árvores menos tímidas já apareciam. Naquela semana, um belo ipê roxo havia florido no caminho dele.

No caminho dele, e no dela também.

Se perguntou se todos que passavam por ali viam o que ele via. Aquela beleza que selecionava tanto sua época de aparecer, com uma expectativa parecida com a que ele controlava diante das possibilidades que haviam surgido. Quase medo.

Como aquela árvore era bonita. Pensou em chamá-la, levá-la até lá, e simplesmente perguntar: "Você vê o mesmo que eu?"

Se a resposta dela fosse afirmativa, então ele teria certeza: Valeria a pena.

Porém, poesia demais não funciona na vida real. São cores demais, tanto quanto as flores que logo surgiriam nos pequenos bosques da cidade, inclusive perto daquele ipê roxo.

Mas a primavera havia chegado, e a hora era a ideal. De novo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Vento

Um forte vento atravessa a janela e invade a sala. A primeira reação é fechá-la, devido ao frio, mas ele se detém. Aguarda. Em poucos segundos, já consegue imaginar que aquele vento traz uma mensagem. Quase podia ouví-la...

Saiu. Do lado de fora, aquela sensação era ótima. A sensação de leveza. De liberdade. Há algum tempo, havia decidido se livrar de pesos passados. Achou que não conseguiria. Acabou sendo mais fácil do que ele pensava.

O ônibus virou a esquina e vinha pela rua. Ele fez o sinal, subiu, pagou, sentou-se. Imediatamente, sentiu falta do vento. Não das coisas que ele carregou consigo, mas da sua vinda. Porém, o vento é passageiro. Ainda que ele descesse do ônibus apenas para sentí-lo de novo, mais cedo ou mais tarde, o vento iria embora, e levaria aquelas decisões, aquelas circunstâncias, com ele. E então, a calma voltaria.

E ele esperaria pelo retorno do vento, das coisas que ele traria, e das coisas que levaria embora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Sentidos, Parte 1: Visão

Olhos. Meio e muitas vezes primeiro objetivo, primeiro alvo. Cores não importam, mas sim a atitude, postura, comportamento. Apenas dos olhos, neste caso. Aqui é onde tudo começa. Aqui, muitas vezes, também é onde tudo termina.


O acontecimento inesperado, a visão de alguém que não se esperava encontrar. Simples constatação. Certo? Errado. Uma certa apreensão surge. Os olhos não sabem onde focar, permanecem seguindo a imagem que saía pela porta. Acompanham seus passos, prevem seus movimentos. E com exatidão.

Algo quebra a calmaria. Os olhos prevem mais esse movimento. Haverá um contato visual. A indecisão toma conta dos olhos. O que fazer? Manter a direção, enfrentar, ou fugir?

Olhos nos olhos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Inesperada

"Miau. Miau. Miau."

Olhou o celular. Marcava 3h30 da madrugada. O gato reclamava ininterruptamente ao pé da cama, porém, com certa paciência. Ele sentou-se na cama e os miados cessaram. No escuro do quarto, só podia ver com clareza os olhos do felino reclamão.

"Que foi?"

O animal levantou-se e foi até a porta. Ele levantou-se, abriu a porta e seguiu o gato, que aparentemente queria ir para o lado de fora. Ele fez como o animal desejava, e alimentou-o.

Uma vez sob a luz da lua, ela veio a seu pensamento.

Quando uma pessoa aparece subitamente na sua consciência, você não dá muita importância e logo se distrai com outra coisa. Se aquilo acontece mais de uma vez na mesma semana, você começa a prestar atenção. No caso dele, já havia perdido a conta. Logo veio a preocupação.

O gato, agora alimentado, esfregava-se na perna de seu dono, aparentemente em sinal de agradecimento.

Quanto tempo pode durar a admiração por uma pessoa? Dois anos e alguns meses?

Platão dizia que existem três tipos de amor: O amor-paixão; o amor-amizade; e o amor da essência. Não lhe restava dúvidas de que se tratava do último. O mais abstrato, chegando ao que muitos chamam de alma. O que Platão não disse é que um amor não exclui o outro. E que a paixão pode voltar sempre, enquanto existir essência.


Voltou para dentro, o animal o seguiu. Trancou a porta dos fundos e voltou para o quarto, sabendo que não conseguiria mais dormir.


E quem ocuparia sua mente não era exatamente quem ele estava esperando.

domingo, 7 de agosto de 2011

Enquanto isso...

...num momento qualquer, num dia qualquer, a caminho de um lugar qualquer, ele esticou a mão para pegar a mão dela.

Mas ela não estava ali.




Mas estará.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Pequenas Frações

Composições minúsculas. Nada é rígido ao ponto de não poder ser despedaçado. Nem o físico, nem o abstrato. A matéria é composta de moléculas, átomos, prótons, elétrons, energia. Já o abstrato, é um pouco mais complicado.

Sou composto de divisões. Ideias, gostos, sentimentos, sonhos, desejos. Sou composto de imediatismo, mas também sou composto de futuro. Sou composto de medo, mas também sou composto de espontaneidade. De amor e de egoísmo. Sou mais do que aparento, sou mais do que o que falo e escuto.

Cada detalhe é proveniente de uma combinação genética aliada a uma determinada exposição durante a formação da minha personalidade, relacionados à minha condição humana. Apenas humano.

Arrisco, e tento, e desisto. E sigo humano.

E, acima de tudo, cada detalhe meu tem uma pequena fração de sonho de te ter pra mim.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Parada Gay

Modernidade é sinônimo de inovação, quebra de tabus e aceitação. Nas últimas décadas, ser homossexual deixou de se tornar um problema e passou a ser apenas uma característica aceita pela grande maioria da sociedade. E é isso que é mesmo. Até aqui, tudo bem. Mas as pessoas confundem às vezes aceitar com favorecer.

A Parada do Orgulho LGBT acontece na cidade de São Paulo há 15 anos. Fruto de uma aparente conquista social, ela vem, na teoria, para disseminar a ideia de aceitação da população homossexual e adjacente, fazendo uso de locais públicos e tendo ainda forte apoio de diferentes esferas governamentais. Não posso dizer com certeza, mas acho que em São Paulo ocorreu a primeira manifestação pública desse tipo, para que então ela se espalhasse pelo Brasil. Porém, a questão que vou tratar nesse texto não é a origem: é a validade.

A Parada Gay acontece no Mês do Orgulho LGBT, um período de várias atividades relacionadas à conscientização e à manifestação pública da homossexualidade e outras opções sexuais diferentes da hétero. A Parada Gay, assim como o Mês do Orgulho LGBT, é financiado principalmente pela prefeitura de São Paulo em conjunto com outras entidades. A prefeitura também cede locais públicos para esse acontecimento.

Agora, vamos às críticas, né? Mas antes que me chamem de homofóbico, tenham a racionalidade de ler até o final.


Começarei por: Dinheiro público.
A participação das várias esferas do governo na conscientização da população é fundamental. Mas o contribuinte ter que pagar a conta de uma festa que não é pra todos, é no mínimo falta de respeito.

Ah, mas ninguém disse que hétero não pode ir à Parada LGBT.

Certo. É um evento público, né. Mas então chama Parada LGBT por quê? Eventos públicos devem visar a disseminação da cultura e a confraternização do povo em geral, não só determinado grupo ou classe social. Um bom exemplo é a Virada Cultural Paulista. É gratuita, tem atrações de diversos tipos e de diversos gostos. É de fato para todos. Diferente da PLGBT.

No que diz respeito ao financiamento desse evento, proponho que ele seja exclusivamente bancado por associações ligadas ao movimento LGBT e pela iniciativa privada, sem dinheiro público.


Segundo: Locais públicos.
A prefeitura de São Paulo também cede locais públicos. Este ano, como todos os outros, o local foi a Avenida Paulista. A realização do evento em locais públicos abertos gera atrito. Este ano, acredito que não foi registrado nenhum caso de agressão física durante o evento, mas a exposição acontece. Outra exposição é a das pessoas que não desejam ter contato com esse evento, seja por autopreservação, ou pela preservação de outros. Vou explicar melhor.
Como hétero, não tenho nenhuma vontade de ir à Parada LGBT, mas isso não significa que não desejo fazer outra atividade no mesmo dia que ela ocorre. Convenhamos que a maioria que participa do evento não o faz de forma discreta, e com a possível mistura de álcool, que há em qualquer festa, não preciso estar exposto a provocações ou manifestações bastante empolgadas de afeto, e quanto a isso, falo de qualquer opção sexual. Falo também da exposição de crianças, que não estão intelectualmente prontas pra lidar com a ideia de relação sexual. Tenho uma irmã mais nova e já passei pela desagradável situação de andar com ela e meu pai pelo centro de São Paulo em dia de Parada LGBT. Ela foi exposta à situações que não tinha idade suficiente pra entender naquele dia.

Ah, mas também né. Era só não sair naquele dia.

Ué, não gostam tanto de falar de direitos? E o meu direito de ir e vir, como fica?

Proponho que a Parada LGBT se torne um evento realizado num local fechado e com acesso restrito a maiores de idade. Em São Paulo, existem vários locais capazes de comportar um público bastante grande. Isso é viável.


Terceiro: Necessidade.
A Parada LGBT diz ter o objetivo de lutar pela igualdade de direitos. Se esse evento realmente buscasse igualdade, ele não existiria.
A Constituição diz que todos os cidadãos são iguais, independente de sexo, cor, religião, opção sexual, etc etc. Então, que igualdade mais há para se consquistar? Se o objetivo é a luta contra o preconceito, nada melhor do que unir ao invés de segregar. Criar manifestações e leis destinadas a um público específico é segregar. That's not the way, fellas.


Enfim, é isso aí.

Fontes:
-Site da Parada LGBT Paulista.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Modernidade Paranoica

Aproveitando o meu último post sobre bullying (e lembrando que o texto não é de minha autoria, apesar de concordar com ele), resolvi falar um pouco mais das paranoias que infestam a vida moderna. Neste post falarei sobre as paranoias da higiene.


Quem já não está cansado de ver montes de propagandas de sabonetes bactericidas que "protegem" o seu filho enquanto ele pula de cara na lama e lambe a cara do cachorro? Aí você vê na TV um sabonete que mata 99,9999% das bactérias e cai nas graças do marketing. Pois fique sabendo: Isso só piora a situação.

Mais cedo ou mais tarde, organismos estranhos vão invadir o corpo. Se você coloca seu filho numa bolha (de sabonete), quando ele sair, estará muito mais exposto. Isso porque é durante a infância que há o maior desenvolvimento do sistema imunológico, ou seja, é nesse período que o indivíduo precisa se expôr. Não estou dizendo pra sair por aí lambendo o chão, mas se você evita que a criança tenha qualquer contato com o que pode deixá-la doente, quando se tornar adulta, estará muito mais fragilizada.

A questão desse post não é só sobre a higiene. Mas sobre as paranoias incentivadas principalmente pela mídia e pelo marketing. Devo lembrá-los que meios de comunicação, em especial a televisão, vivem de paranoia e de causar medo. Informem-se a respeito antes de cair nas graças do sabonete bactericida.


Fontes:
-Folha Online;
-Portal Terra.


Ah, e assistam menos TV.

sábado, 16 de abril de 2011

Bullying: Entre a agressão e o mimimi

Por Mariana Nadai - 08/04/2011


Nas últimas semanas, matérias sobre bullying ganharam destaque na mídia. Notícias sobre o estudante australiano que reagiu aos ataques que sofria na escola, ou da garota que foi agredida por denunciar que sofria bullying em faculdade brasileira e até da adolescente norte-americana que virou sucesso na internet por postar um vídeo mostrando ao mundo seu sofrimento em sala de aula foram exploradas na imprensa do mundo todo.

O tema se tornou tão frequente, que o bullying passou a ser a explicação para diversos tipos de abuso: se não deixaram a adolescente participar de um grupo na sala de aula é porque ela sofre de bullying, chamaram o garoto de nariz de palhaço, ele sofre a violência na escola. E, pior, está tão na moda nomear tudo de bullying, que a mídia tenta justificar atitudes extremas, como a chacina na escola do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, como uma resposta da possível violência que o assassino teria sofrido na escola.

“Acredito que a imprensa tem que ser mais responsável com o que noticia. Não dá para generalizar e dizer que tudo é bullying, como tem acontecido. Por exemplo, ser ignorado é um tipo de agressão, mas não configuraria essa violência. Mas, infelizmente, hoje generalizam tudo, porque o assunto está na moda”, diz Maria Isabel Leme, psicóloga especialista em Psicologia escolar.

Mas, ao que parece, o momento é de complexidade. Pelo menos para a psicóloga Maria Isabel. “Por mais que pareça exagero, tem que noticiar sim. Há 13 anos eu estudo a violência na escola e, de lá para cá isso só tem piorado. Acho que uma sociedade menos intolerante à violência pode ser bom”, comenta.

Para a psicopedagoga Maria Irene Maluf, existe uma tendência das pessoas em diagnosticar tudo e falar sobre bullying dá muito ibope, por isso o tema é recorrente. “Há um certo exagero da mídia sim. Ficou bonito falar de bullying. As pessoas aprenderam o que é essa violência e, aproveitando que a questão chama muita a atenção, a imprensa acaba taxando tudo de bullying. Isso é muito ruim, porque, entre outras coisas, prejudica o diagnóstico dessa agressão”, afirma.

Maria Irene acredita que muitas vezes a mídia quer forçar a barra para explicar determinadas situações. O caso do homem que matou doze crianças na escola do Rio de Janeiro é um deles. “É uma possibilidade dizer que o atirador matou por conta de bullying, mas também querem forçar um pouco a barra. Não sabemos nada sobre essa pessoa. Isso acontece, pois sempre esperam achar uma resposta para atos impensados, para grandes tragédias”, explica a psicopedagoga.

Bullying é mais do que uma brincadeira de mau gosto
O conceito de bullying é muito amplo, entretanto é possível de ser diagnosticado. “O bullying é muito mais do que o apelido que o seu filho recebe na escola. Se esse apelido ultrapassar a brincadeira, ele pode ser considerado uma ameaça. Quando a criança passa a ser discriminada, humilhada, perseguida por isso, aí é bullying. Se é apenas uma encheção não podemos dizer que é a violência”, diz Maria Irene Maluf.

A psicopedagoga afirma que, em alguns casos, também pode ser considerado bullying a exclusão de uma pessoa dentro da sala de aula. “Entretanto, se um estudante se isola por vontade própria e acaba criando uma inimizade com os demais não podemos considerar como bullying”, diz.


Fonte: Guia do Estudante da Editora Abril

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Arte



Eu não gosto nem do termo em si. "Arte" traz uma conotação de ser aceitável. Se algo é considerado arte, deve ser admirado e respeitado, ainda que não agrade. Essa convenção é estúpida e ridícula.

A arte se define como todo produto que é capaz de causar uma reação. Por essa lógica, tudo é arte. O céu é arte, já que traz uma sensação de grandeza. Um buraco no chão é arte, já que traz uma sensação de perigo. E merda num pote de plástico é arte, já que traz uma sensação de repulsa. Não sou contra a arte. Sou contra usá-la como desculpa pra que qualquer porcaria seja admirada e/ou respeitada.

Os produtos artísticos existem em variadas formas. Inclusive, não precisam ter forma alguma pra serem considerados arte. Entendem minha indignação? Você pode cagar num pote de plástico e dizer que é arte e ainda encontrar adeptos do seu "pensamento artístico" que criarão inúmeras interpretações pra sua merda.

Eu não sou um artista.

sábado, 2 de abril de 2011

Fragilidade

A vida é tão frágil. Por isso, ele se apegava a conceitos. E notou que todos faziam o mesmo. Até que ela chegou, e derrubou quase todos esses conceitos. Como se fosse fácil. Como se fosse de propósito.


Acordou. Ainda estava naquele período que ele já havia previsto que chegaria. Adaptação. De novo.

A situação que se desenrolou já havia uma semana o perturbava como ele já sabia que aconteceria. Mas não se importou. Valia a pena. Sempre valeria a pena. Sim, ele estava cansado do desgaste, das adaptações, da radicalidade com que tinha que controlar seus pensamentos, suas vontades. Mas sempre valeria a pena, enquanto aqueles olhos o olhassem como da primeira vez.

Levantou-se. Havia dormido bastante, mas sentia-se cansado. Emocionalmente cansado. "Até quando?"

Estava muito tarde para tomar café. "Tarde demais", pensou consigo. "Será?"

Acabou por tomar café. Sempre tomou decisões conforme sua vontade e não se prendeu a uma suposta convenção social de horários para refeições. Talvez por isso tivesse engordado nos últimos anos.

Há muito tempo, sabia manter as circunstâncias de sua vida sob controle. Sabia o que fazer, como agir, o que era mais importante e o que não era. Tinha seus planos pros fins de semana bem definidos, sabia se aproximar e sabia se afastar. Só não sabia que tudo isso mudaria.

Já havia um tempo que ele não era mais o mesmo. Via as coisas de uma forma diferente, sabia que as pessoas poderiam surpreendê-lo a qualquer momento. Descobriu que isso não é tão comum assim. Descobriu também que, uma vez que pessoas assim entrassem na sua vida, ele desejaria que nunca saíssem. Descobriu ainda que isso o desgastaria, mas ele se sentiria feliz a respeito. É, ele não era mais o mesmo.


Ela ainda derruba. Como se fosse de propósito.

~~

E pra quebrar a tensão (mas mantendo-nos no assunto):

quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma nova fase

Nova fase?




Não, gente hahahaha. Estou falando da vida, claro.


Aos que são mais próximos de mim, não é novidade saber que agora sou um futuro engenheiro ambiental. O curso em si não é motivo completo da minha animação a respeito deste ano. Mais responsável é a fase que se inicia. E eu que achava que era papo furado quando diziam: "Calma, na faculdade tudo muda."


Além do campus ser bem legal, os meus colegas de sala serem pessoas simpáticas e os professores serem atenciosos, motivos que alegrariam qualquer um, poder dizer "eu faço Unesp" é muito mais do que passar essa simples informação. Implícito nesta frase estão coisas como: "Eu tive mérito de entrar numa universidade pública"; "Estou conhecendo pessoas interessantes"; "Tenho liberdade para aproveitar o campus e a companhia dos meus colegas"; etc.


Sei que nem tudo é alegria. É só a primeira semana e ânimos já afloraram a respeito do primeiro relatório do laboratório de Física. Haverá pressão, dificuldade, nervosismo, mas agora podemos dizer que somos capazes. Somos independentes. Amadurecemos.


É isso aí. Aproveitem cada fase de suas vidas, inclusive esta. :)


Heitor Silva - bixo da Engenharia Ambiental da Unesp, campus de Presidente Prudente. Março de 2011.


Obs: Ficarei devendo o conto que a Mayara (que recentemente se identificou como "minha fiel leitora") pediu, até que a minha criatividade resolva voltar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cotidiano

"Olha só, Heitor, vou secar a caixa com esse pano, hahahaha!" - Minha irmã vem na minha direção trazendo o gato, que alguns segundos depois, estará todo molhado.

***

"Você tá muito confiante. Você vai ver tudo dar errado. E aí, como você foi?" - Minha mãe e sua ladainha característica.
"Tô entre os primeiros da lista de espera. O que você dizia mesmo?" - Respondo.

***

"Miaaaauuu!"
"Miau."
"Miaaau"
"Mi-miau-u"
Eu e a Nina conversamos várias vezes ao dia.

***

"Heitor, não é um absurdo?" - Minha irmã.
"O quê?"
"Ah... Cê sabe!"
"Não, não sei."
"Então deixa."

***

"Isabel, posso perguntar uma coisa?"
"Você nao vai perguntar aquilo de novo, né?"
"Não, não..."
"Então pode."
"Ok... Por que você é boba?"
"Ai, eu sabia!"

***

Estou mexendo no computador, quando:
"Ahhhhhhh quem é essa??? Mããããeeee, o Heitor tá vendo foto de menina no computadooooooor!"

***

"Heitor, o que significa 'spiqui ful'?" - Minha irmã perguntando, na verdade, o que significa "Speak, fool", quando eu estou jogando Warcraft com os Undead.

***

"Gato... gaaaato..." - Ele olha pra mim.
"GATOGATOGATOGATOGATO" - Corro atrás dele.


That's life.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Anormalidade

Outro dia fiz um Top Five no twitter das minhas esquisitices. A @mayaragabaldi foi na onda e fez um post no blog dela sobre as esquisitices da própria. Então vou copiá-la e fazer um aqui no meu também. Here we go:

-Eu imagino cenas de horror no dia-a-dia. Se estou na rua, vejo alguém ser atropelado, vejo um acidente de trânsido e alguém sendo arremessado pra fora do carro, um atentado a bomba, um suicida no alto de um prédio, etc. Não se tratam de instintos assassinos ou sadismo, mas uma imaginação bastante fértil e talvez inconscientemente pessimista;

-Se você tem um nariz feio, eu provavelmente não irei com a sua cara em um primeiro momento. É uma espécie de preconceito, mas como todos os outros que eu tenho, costumo dar uma chance antes de criar conceito sobre alguém;

-Odeio lugares cheios. É quase uma claustrofobia. Eu me apavoro, a menos que seja em show;

-Eu tive um olho de peixe no pé que sumiu sozinho. Ficou durante anos no meu pé, e em uma semana desapareceu. Preciso admitir que fiquei chateado na época :( poxa;

-Tenho horror a quiabo e beringela D: De ficar enjoado e passar mal só de olhar mesmo;

-Eu já colecionei bolinhas de papel. Nada de especial, só papel amassado;

-Eu tenho horror a botões. Não uso roupas que tenham botões, não tenho camisas sociais e só tolero o botão da calça porque fica sobre a camiseta, escondido. Não gosto nem de escrever ou falar ''botão''. Não consigo segurar um botão na mão por muito tempo, e sempre me vem a imagem de colocar um na boca, já fico com nojo;

-Eu invento histórias inteiras em questão de dez minutos, e as esqueço em seguida;

-Tenho mania de cheirar pescoços. Se o abraço levar mais de dois segundos, eu vou cheirar seu pescoço, seja homem, mulher, jovem, velho, hetero, gay...;

-Acredito que uma das minhas narinas tenha uma espécie de obstrução. Só sei que, tampando a normal, não consigo respirar só com a outra;

-Desenvolvi as pernas antes dos braços e do tronco, então pensem se eu não era muito zoado quando criança.


Acho que essas são as principais. Se eu lembrar de mais, atualizarei.
Falem de esquisitices suas nos comentários :)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vá lá fora e viva

Se você tem medo de algo, leia esse post até o fim, porque ele é pra você.


Eu não entendo pessoas que se deixam tomar pelo medo. Pessoas que preferem não agir, com medo das consequências. Não falo de momentos de loucura. Falo de decisões da vida.

Pessoas que temem o sofrimento, as dificuldades, ou até a felicidade em si.

Como será que essas pessoas sabem que estão vivas? Será que sabem? Será que elas têm consciência do quanto são patéticas?

E você? Você tem consciência do quanto você é patético? Você vive de fato ou só segue nessa inércia ridícula comumente confundida com vida, apenas pelo fato de estar respirando?

Eu presenciei isso recentemente. Minha decepção foi tamanha, mas esperada. Raiva? Senti. Mas acho que o que eu senti ainda mais foi pena.

Pena. Pois é. Eu, ao menos, sempre caio de cabeça nas minhas decisões. Não temo meus sentimentos, não temo nenhuma entidade divina, não me prendo a bens materiais e por esses aspectos me considero livre. Sou livre até não querer ser mais. Até querer abrir mão disso pelo amor. A maior burrice da vida que eu aceito e admito com o maior prazer. Sim, eu abro mão da liberdade pelo amor, e apenas por ele.

Mas não são todos que pensam (ou se sentem) assim. As pessoas tem medo, e não se dão completamente. São pessoas presas. Não são livres. E só saberão ser felizes no dia em que forem livres, e abrirem mão da liberdade. Irônico, não? Para ser feliz, primeiro você precisa ter a liberdade, e abrir mão dela. Só há coragem na liberdade.

Há quem se lembre dos meus posts sobre o medo. Eu mesmo não tinha a compreensão que tenho agora sobre esse assunto. Pois é. A decepção e o sofrimento ensinam, isso não se pode negar.

Você só vai ter essa vida.


''Só quando abrimos mão de tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa.''

domingo, 16 de janeiro de 2011

Autoproteção

''You decide your level of involvement!''¹


O instinto de autoproteção é algo bastante interessante. Já falei sobre esse assunto neste post, mas aqui, vou abordar de um ângulo diferente.

Quando um plano se inicia, já existe um consenso entre os envolvidos. Às vezes, esse consenso é verbal e claro; às vezes, não. Nesse segundo caso, os problemas são óbvios e com certeza vão aparecer.

Porém, uma coisa se aplica aos dois: Confiança.

O problema surge quando uma das partes não corresponde da forma como deveria. A citação que eu fiz é no começo do post, retirada de um filme, e no contexto da história, um dos personagens acusava o outro de não corresponder da forma correta. A resposta do outro foi a citação que eu fiz. ''You decide your lever of involvement.'' Pois é. Em outras palavras, ele disse: ''Eu vou me envolver só até onde eu achar que é benéfico pra mim, e você deveria fazer o mesmo.'' Ouvir isso é praticamente um soco na cara.

Confiança. O problema dela é que, quando falha, todos protegem só a si mesmos. Mas sempre tem aquele que não quer desistir. Que abre mão da segurança por um objetivo maior. Mais importante. Que já exigiu muito, então, vamos até o final. Burrice? Talvez. Mas o orgulho, a consciência e a persistência desse tipo de pessoa são muito fortes. E ele vai preferir esgotar seus recursos a desistir. Falhar não é o mesmo que desistir. Falhar tem o mérito da persistência. O resultado é o mesmo, mas a consciência fica tranquila.


Citações:
¹: Clube da Luta (Fight Club) - 1999, 20th Century Fox.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Família

Natal com família.

Todos aqueles parentes que você não vê há tempos, reunidos. Aquele tio engraçadão que adora um baseado; aquela vó bruxa que só se faz de coitada; aquele primo desandado que uns anos depois seria preso por roubo de carro; aquela prima de segundo grau que, apesar de já ter quase 30 anos, ainda curte a vida como adolescente; seus pais com aquele sorriso falso - que na verdade, todos estão, mas quando se é criança, só consegue perceber os dos seus pais... E você torcendo pra sua irmã, que é só um bebê, ter uma dor de barriga que force vocês a irem embora. Esperanças vazias que não se concretizam.

''E a escola?''
''Vai bem.''

''E as namoradas?''
''Nem tenho.''
''Como não?''
Se um dia você souber a resposta, me avise.

No começo você fica na sua, próximo dos seus pais. Até que alguém (geralmente aquela tia liberal) diz: ''Vai lá brincar com o resto das crianças!''

Você vai... E fica no seu canto do mesmo jeito. Se for novo o suficiente, pode arranjar um canto pra dormir e esperar a hora de comer ou ir embora.

E quando você cresce? Aí fodeu de vez. Você é obrigado a permanecer na sala, onde todos vão te fazer as mesmas perguntas da sua infância, talvez algumas novas, e sempre tentarão te constranger.

''E a escola?''
''Já terminei.''

''E esse cabelo?''
''Que tem ele?''
''Não corta não? Hahaha''
''Se me der vontade, é capaz.''

''E as namoradas?''
''Eu dou umas trepadas de vez em quando.''
''Como é??''
''Tô brincando. Eu dou umas trepadas todo dia.''

Palavrões voando pelo ar. Quanta falta de senso de humor. Ou vai ver é porque as crianças estavam presentes.

Mas agora você pode curtir tirar um sarro do seu tio maconheiro, que depois de todos esses anos, tem o cérebro igual a um queijo suíço de tanto puxar fumo.

''E aí, tio, como tão as coisas?''
''Ahn... Ah... Bem...''
''Cê viu aquela coisa das enchentes? Tenso né...''
''Verdade. Tudo culpa do governo.''
''O governo devia fazer parar de chover, né''
''NEM ME FALE! EU ACHO ISSO TUDO UM ABSURDO! ABSURDO!!! ESSES 'POLÍTICO' SÃO TUDO SAFADO!''

E aquela vó bruxa? Apesar de ter 500 anos, - e aparentar apenas 80, graças ao formol - nunca morre.

''Ai fio, não tô ouvindo nada que você tá falando. Repete?''
''Você é uma velha perturbada.''
''O que?''
''Nada vó, só disse que a senhora está maravilhosa.''

Família. Tsc tsc.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Promessa e Confiança

Post ''encomendado'' pela Beatriz Fukunari.



''Promete?''

Por que damos tanto valor a isso?

A nossa dificuldade em confiar nas pessoas está diretamente ligada ao fato de que não queremos nos decepcionar. A partir daí, em determinadas situações bastante específicas, queremos estabelecer uma espécie de compromisso, onde a palavra da pessoa fica em evidência. Qualquer deslize, e ela perderá nossa confiança pra sempre. Pelo menos, essa é a teoria.

A partir do momento que você exige que alguém faça uma promessa, e essa pessoa faz, você se coloca numa posição de desvantagem. Aquela pessoa tem poder sobre você, e se ela não se importar com você, não se importará em quebrar a promessa. Cuidado.

Mas quando a promessa é espontânea, quem se coloca em desvantagem é quem a fez, porém, com muito menos a perder do que na situação anterior, uma vez que quem fez a promessa busca confiança, ainda não a tem.


Então, quando uma promessa é quebrada, a confiança se perde?


Não necessariamente. Podem haver circunstâncias que dificultam ou impedem que a promessa seja cumprida. Cabe o bom senso de quem ''está em vantagem''. Ou pode acontecer o perdão também. :)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Beleza

Ele saiu. Queria ''tomar um ar''. O sol se punha a oeste, por detrás das árvores. O cheiro de umidade era constante naquela época do ano. O vento estava fraco, mas o ar estava frio, e isso o fazia tremer. Ele não se importava. Gostava de estar naquele lugar...

***

Ela acordou inspirada naquele dia. Tomou seu café e correu para o estúdio. Era uma vida um pouco difícil, mas ela nunca se arrependeu de ter estudado Música. Aquilo a realizava, quase podia ver as notas passeando pelo ambiente. Escrevia as notas como se já estivessem pensadas há tempos na sua cabeça. Quando terminasse, aquilo seria...

***

Um alarme de carro disparou na rua. Como se adivinhasse ainda antes de acordar, a dor voltou. Não havia nada mais que pudesse ser feito. Continuaria a observar o céu, lembrando dos seus momentos juntos, num sofrimento...

***

Ele a viu ao longe, vindo na sua direção. Fez que não. Esperou que ela chegasse mais perto. ''Oi!'' Abraçaram-se. ''Vamos?'' As mãos se tocaram, e os dedos se entrelaçaram. Ela riu de vergonha. Ele riu da risada dela. Não se percebia nada ao redor. O momento era deles, e era...



...belo.