segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Mar

Ela forçava sua vista até onde conseguia, como se procurasse alguma figura no horizonte. Porém, quanto mais ela tentava, mais se sentia isolada.

Ali naquela areia úmida, ela procurava entender a indecisão do mar. ''Por que ele vai e volta? Ele precisa se decidir.''

Era como se ela sentisse o sofrimento do mar. Queria e tentava chegar à praia, abraçá-la e tê-la pra si, mas não conseguia. Ele era fraco demais pra manter-se junto dela, ou ela que não o aceitava? ''Ele devia desistir'', pensava. Mas o mar não desistia. Continuava vindo e voltando, horas com mais força, horas mais fraco. Como se ele sentisse a frustração, mas soubesse que não podia desistir.

Ela se via no mar. Tentava alcançar algo que ao mesmo tempo parecia definido e impossível. Maravilhoso e angustiante. Próximo e inalcançável.

Aquela sensação aliada ao local onde estava a lembrou da conhecida metáfora dos castelos de areia. Construímos nossos sonhos e objetivos como castelos de areia, pois são frágeis, e podem desabar a qualquer momento. Ela havia desistido de construir castelos de areia há muito tempo. Mas agora as coisas eram diferentes. O mar estava chegando aos seus pés. Se ele podia chegar mais longe, ela também podia, certo?

Ela olhou novamente para o horizonte, mas dessa vez, ao invés de olhar vagamente, ela tinha um objetivo.

Em 2010...

...não soube o que fazer
...não quis me apegar
...fui num show incrível (Dream Theater - São Paulo)
...me desiludi
...desiludi outras pessoas
...não bebi, como sempre
...não dei muitos rolês
...não me esforcei tudo que eu podia
...conheci várias pessoas legais
...reformei e recomecei esse blog
...não valorizei pessoas que mereciam esse valor
...valorizei pessoas que não mereciam esse valor
...fui valorizado sem merecer
...fui desvalorizado sem merecer
...confundi sentimentos
...fiz os outros confundirem sentimentos
...fiz grandes amizades
...mantive as antigas amizades
...e terminei o ano amando. E sendo correspondido.


Até que me dei bem, né?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Saudade

Mais um carro passando na avenida.

Da sacada do seu apartamento, ele observava o movimento da uma da manhã que seria incomum para qualquer um que não vivesse naquela metrópole. Isso o agradava.

A todo minuto, ele repetia aquele momento na sua cabeça. Procurava distrair-se, arrumando coisas para fazer: ''Preciso ir ao banco, preciso comprar uma calça, preciso limpar o banheiro.'' Mesmo assim, aquela visão martelava sua cabeça.

Andando em círculos pelo apartamento, ele ainda sentia aquele cheiro familiar e notou as marcas que as rodinhas da mala dela fizeram no piso de madeira. ''Hm, preciso mandar trocar essa tábua.'', pensou, novamente procurando distração.

Já fazia seis dias que ela havia deixado aquele local. Mas, para ele, cada minuto parecia uma semana. Ele acordava de manhã e abraçava o vazio ao seu lado. Saía para trabalhar olhando o céu, coisas que fizeram várias vezes juntos. Ao voltar para casa, só jantava os pratos que ela mais gostava. No seu tempo livre, pegava seu violão e tocava as músicas que mais a agradavam. Ela se tornou o seu ritmo, o seu sentido, e sem ela, ele não sabia o que fazer.

Ele sabia que sobreviveria, mas até isso acontecer, ele teria que morrer a cada minuto.

No dia seguinte, ela voltou de viagem.