domingo, 22 de janeiro de 2012

A Banca de Jornal

Estar de férias é muito bom. Todos precisam de um período de descanso do mundo e tal.

Essa semana consegui me desligar quase que completamente do mundo. Quatro dias no litoral, só meu pai de companhia, celular desligado durante o dia todo, uma ou outra visita à uma lan house (afinal, mesmo de férias nasci nessa era digital, né).

Mas mais importante que tudo isso, é o redescobrimento. Dois deles, aliás.

O primeiro, da minha relação com meu pai. Há anos, sem exagero, não passava tanto tempo só com ele. Fizemos de tudo juntos, tomar café, ir à praia, almoçar, tirar sonecas à tarde, conversar sobre TUDO, ir ao cinema, beber até precisar encontrar uma parede pra ajudar... Foi muito bom. Há tempos não tinha uma semana tão legal assim.

O segundo, o meu próprio. Andar sozinho, num lugar completamente desconhecido, sem saber quem ou o quê encontrarei... Quase como a vida. Mas mais simples.

Estar de férias num lugar desconhecido é interessante. Pode te mostrar muito sobre você mesmo. No meu caso, mostrou que posso passar muito tempo numa banca de jornal, olhando revistas, jornais, pequenos livros. Mostrou que posso gostar de coisas que nunca tinham me passado pela cabeça em outros momentos, ou que posso me entreter com coisas que antes pareciam monótonas.

E o melhor de tudo, mostrou que posso apreciar pequenas coisas, como tomar um milk shake de cappucino com o meu pai assistindo clipes antigos numa lanchonete qualquer, tentando adivinhar os nomes dos músicos que aparecem.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um conto não-romântico

O som das árvores balançando dominava o lugar. Ele ouvia claramente seus passos no chão, um após o outro.


O sol se escondia por trás das nuvens, mas o dia estava claro. Mais um dia claro na estrada, um após o outro.


Buscava uma direção pra seguir, como vinha fazendo há tanto tempo. Tanto tempo que já nem se lembrava mais. Uma após a outra.


Ainda lembrava dos amigos que fez, aqueles que valiam a pena. Mas eles seguiram o caminho deles, simplesmente não indo à lugar nenhum. Ele acabou por sair da vida deles, quando escolheu a estrada. Amigos novos apareciam e iam embora no seu caminho. Um após o outro.


Ouvia o vento soprar no seu ouvido, e em tudo que o cercava. Aquele vento, a garoa, e sua própria respiração, que vinham e iam embora. Um após o outro.


Ainda podia ver ao longe a última cidade que havia visitado. Uma cidade de povo alegre, talvez numa felicidade ignorante. Mais uma naquela terra desconhecida. Uma após a outra.


Naquela cidade, havia um lugar onde as pessoas se reuniam. Lá ele conheceu uma garota, como as outras das cidades anteriores. Ele nem soube o nome dela. E nem se despediu também. Ela era igual às outras.


Uma após a outra.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sentidos, Parte 2: Audição

"Oi!", e o som rapidamente encheu o lugar. Logo em seguida, um silêncio aparentemente infinito. E aquele "oi" fica ecoando dentro da cabeça...

Mais alguma coisa é dita, mas não se ouve direito... Ainda há o eco interior.

"Desculpe, não ouvi..."
"Eu disse que esperava te ver aqui." E um sorriso.

Silêncio, novamente.


Para os que sabem ouvir, o silêncio diz muito.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Espaços

Tarde da noite, avenida vazia. Ele sentou-se no banco do ônibus e começou a esperar. Dias como aquele (ou suas noites) lembravam-o sempre de que estava sozinho.

Apesar do peso que essa constatação parece ter, ele não se sentiu mal. Gostava de ser um solitário. O vazio que ele preenchia, nem sempre com muito sucesso, fazia parte de quem ele era. Por que não, afinal? Por que precisamos sempre estar cheios de coisas ocupando nossos espaços? E se o próprio espaço não fizer parte de quem somos?

Será que, ocupando-o, ele não acabaria por esquecer de quem é?

Estamos sempre tão cercados, tão cheios de coisas querendo nos invadir, que esquecemos de nos conhecer, saber quem somos, quais são nossos gostos, ideias e objetivos. Deixamos que o mundo e as pessoas joguem suas porcarias dentro de nós, e deixamos que elas nos consumam, nos mudem. Acabamos nos perdendo no mundo, e no seu lixo.

Sentou-se no meio da avenida. Sem sinal de carros ou pessoas, de qualquer lado que fosse. Tudo vazio. Mas a avenida ainda estava lá. Em sua essência, ainda era a mesma e não perdeu seu propósito. O horário não era propício, mas nem por isso ela nunca mais seria útil.

O horário. A época. A situação. Como quem sempre soube daquilo, mas só então tivesse de fato parado pra pensar, ele sorriu discretamente. Mas não era a primeira vez que pensava sobre aquilo.

Levantou-se, começou a caminhar. O sol começava a aparecer. Logo, aquela avenida estaria cheia.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Primavera... De novo




E então o inverno acabou. O vento mudou, e as árvores se permitiram deixar que as folhas crescessem. Nuvens começaram a ser mais presentes, e as flores das árvores menos tímidas já apareciam. Naquela semana, um belo ipê roxo havia florido no caminho dele.

No caminho dele, e no dela também.

Se perguntou se todos que passavam por ali viam o que ele via. Aquela beleza que selecionava tanto sua época de aparecer, com uma expectativa parecida com a que ele controlava diante das possibilidades que haviam surgido. Quase medo.

Como aquela árvore era bonita. Pensou em chamá-la, levá-la até lá, e simplesmente perguntar: "Você vê o mesmo que eu?"

Se a resposta dela fosse afirmativa, então ele teria certeza: Valeria a pena.

Porém, poesia demais não funciona na vida real. São cores demais, tanto quanto as flores que logo surgiriam nos pequenos bosques da cidade, inclusive perto daquele ipê roxo.

Mas a primavera havia chegado, e a hora era a ideal. De novo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Vento

Um forte vento atravessa a janela e invade a sala. A primeira reação é fechá-la, devido ao frio, mas ele se detém. Aguarda. Em poucos segundos, já consegue imaginar que aquele vento traz uma mensagem. Quase podia ouví-la...

Saiu. Do lado de fora, aquela sensação era ótima. A sensação de leveza. De liberdade. Há algum tempo, havia decidido se livrar de pesos passados. Achou que não conseguiria. Acabou sendo mais fácil do que ele pensava.

O ônibus virou a esquina e vinha pela rua. Ele fez o sinal, subiu, pagou, sentou-se. Imediatamente, sentiu falta do vento. Não das coisas que ele carregou consigo, mas da sua vinda. Porém, o vento é passageiro. Ainda que ele descesse do ônibus apenas para sentí-lo de novo, mais cedo ou mais tarde, o vento iria embora, e levaria aquelas decisões, aquelas circunstâncias, com ele. E então, a calma voltaria.

E ele esperaria pelo retorno do vento, das coisas que ele traria, e das coisas que levaria embora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Sentidos, Parte 1: Visão

Olhos. Meio e muitas vezes primeiro objetivo, primeiro alvo. Cores não importam, mas sim a atitude, postura, comportamento. Apenas dos olhos, neste caso. Aqui é onde tudo começa. Aqui, muitas vezes, também é onde tudo termina.


O acontecimento inesperado, a visão de alguém que não se esperava encontrar. Simples constatação. Certo? Errado. Uma certa apreensão surge. Os olhos não sabem onde focar, permanecem seguindo a imagem que saía pela porta. Acompanham seus passos, prevem seus movimentos. E com exatidão.

Algo quebra a calmaria. Os olhos prevem mais esse movimento. Haverá um contato visual. A indecisão toma conta dos olhos. O que fazer? Manter a direção, enfrentar, ou fugir?

Olhos nos olhos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Inesperada

"Miau. Miau. Miau."

Olhou o celular. Marcava 3h30 da madrugada. O gato reclamava ininterruptamente ao pé da cama, porém, com certa paciência. Ele sentou-se na cama e os miados cessaram. No escuro do quarto, só podia ver com clareza os olhos do felino reclamão.

"Que foi?"

O animal levantou-se e foi até a porta. Ele levantou-se, abriu a porta e seguiu o gato, que aparentemente queria ir para o lado de fora. Ele fez como o animal desejava, e alimentou-o.

Uma vez sob a luz da lua, ela veio a seu pensamento.

Quando uma pessoa aparece subitamente na sua consciência, você não dá muita importância e logo se distrai com outra coisa. Se aquilo acontece mais de uma vez na mesma semana, você começa a prestar atenção. No caso dele, já havia perdido a conta. Logo veio a preocupação.

O gato, agora alimentado, esfregava-se na perna de seu dono, aparentemente em sinal de agradecimento.

Quanto tempo pode durar a admiração por uma pessoa? Dois anos e alguns meses?

Platão dizia que existem três tipos de amor: O amor-paixão; o amor-amizade; e o amor da essência. Não lhe restava dúvidas de que se tratava do último. O mais abstrato, chegando ao que muitos chamam de alma. O que Platão não disse é que um amor não exclui o outro. E que a paixão pode voltar sempre, enquanto existir essência.


Voltou para dentro, o animal o seguiu. Trancou a porta dos fundos e voltou para o quarto, sabendo que não conseguiria mais dormir.


E quem ocuparia sua mente não era exatamente quem ele estava esperando.

domingo, 7 de agosto de 2011

Enquanto isso...

...num momento qualquer, num dia qualquer, a caminho de um lugar qualquer, ele esticou a mão para pegar a mão dela.

Mas ela não estava ali.




Mas estará.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Pequenas Frações

Composições minúsculas. Nada é rígido ao ponto de não poder ser despedaçado. Nem o físico, nem o abstrato. A matéria é composta de moléculas, átomos, prótons, elétrons, energia. Já o abstrato, é um pouco mais complicado.

Sou composto de divisões. Ideias, gostos, sentimentos, sonhos, desejos. Sou composto de imediatismo, mas também sou composto de futuro. Sou composto de medo, mas também sou composto de espontaneidade. De amor e de egoísmo. Sou mais do que aparento, sou mais do que o que falo e escuto.

Cada detalhe é proveniente de uma combinação genética aliada a uma determinada exposição durante a formação da minha personalidade, relacionados à minha condição humana. Apenas humano.

Arrisco, e tento, e desisto. E sigo humano.

E, acima de tudo, cada detalhe meu tem uma pequena fração de sonho de te ter pra mim.